quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Terra

Jazem,
derradeiros,
olhos azuis sob a mortalha,
tecida em matéria escura
bordada com nebulosas,
cobrindo finitos rastros
de fenecidos sonhos,

...uma estrela agonizante,
vermelha,
obscura,

um planeta congelado,
um esquife,
uma lua...
 
 
 
Veras

Do tempo Cósmico...

Entre o fechar
e o abrir dos olhos,
ascendem e caem
árvores e impérios,
dilemas e ilusões
amores eternos,
homens e deuses...

Entre o fechar
e o abrir dos olhos,
escura explosão,
novo universo,
extinção...

eis ai,
então,
a grandiosa saga humana,
em um piscar de olhos
de um entediado e circunspeto
tempo cósmico...
 
 
Veras

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Lennon


Cada secreto John em nós
tem a Yoko que merece,
tem seu Chapman que aparece
recostado em grades frias
da Nova York que anoitece...

Cada secreto John em nós
tem seus tiros que merece,
súbitos
pelas costas,
do mundo inteiro que entristece...

Cada secreto John em nós
tem seus corações parados,
apertados,
nas mãos dos estupefatos
cirurgiões, que constatam
as semelhanças dos corações...



Veras










terça-feira, 23 de novembro de 2010

Quietude


Quis ser colhido pelas flores,
pentear a ventania enlouquecida
ornamentar túmulos de vãos amores
deixar o mar, formalmente
adentrar a sala arrumada,

sem me importar
com o olhar circunspeto
da falecida do quinto andar,
aliviado e quieto,
deixar o ar me respirar,
a musica me cantar
a vida me viver,

e num ato de misericórdia
deixar a morte morrer... 
 
 
 
Veras

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Eu te inventei


Com partes arrancadas de mim
te criei,
te encantei
te adorei por inteiro,
te conduzi
pelas expectativas lúdicas
dos curtos cordéis...

Eu te inventei,
te dei vida útil
em cada gesto,
cada ida dramática
e em cada volta festiva,
eu esperei.

mas a ilusão envelheceu,
cumpriu seu ciclo,
nasceu, cresceu, morreu,
e você, virou você mesma;
vai com deus... 
 
 
 
Veras

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Bar


Agora eu sei,
Ela me vê
Mas não me olha com paixão

Passa com graça,
Eu na cachaça,
E mais um poema
No guardanapo do balcão

Olhos cansados
Nariz na vidraça
Suspiros de amor
No vidro que embaça

Mais uma pura
Faço uma jura:
“Não vou me humilhar!”

Pego o caminho de casa
e doido,
vou devagar,

vou planejar... 
 
 
 
 
Veras

Involuntários


Filhos das colisões
das fricções
dos acasos
das explosões,
cá estamos nós,
involuntários,
da árdua tarefa de viver,

Até que a morte,
em sua arte de colher,
sem previa consulta,
arranca-te dessa terra
sem você querer...
(involuntariamente) 
 
 
 
Veras

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Meu poema sem fim


Pousa cândido,
e rasteja tétrico,
dorme entre crianças
e as devora pela manhã...

Ele nunca terá fim,
e a releitura sempre o despertará,
incômodo
apertado
incompleto
insatisfeito
expondo seu pleito
às setas dos meus olhos cúmplices

Este amórfico poema
implora, aos prantos
que eu o abandone,
que o deixe renascer
nos olhos de outros tantos
que o queiram ler
sem suscitar os espantos
do meu compulsivo reescrever



Veras







terça-feira, 2 de novembro de 2010

Solitude





Solidão
Parceira infiel
Nos secretos porões
Nos festivos salões
Que vem quando quer
Quando bem entende,
Sabe-se lá de onde,
Se das alturas
Em que se aninha,
Ou se das cavernas
Cavadas em mim

Que não toca campainha
Ou assovia pra janela,
Pois, sendo “ela”,
É pés nos saltos, largas ancas,
Arrombando minha porta,
Remendada e já sem trancas

Parceira sazonal
Mãos frias
Em suada fronte
Carinhosa
Não me quer mal,
Mãos que podem salvar
Puxando-me, cuidadosa,
Dos escombros dessa mesmice...





Preto e branco

Do branco
Aos tons de cinza
Chegando ao preto;

Eis meu arco-íris
Suspenso sobre a minha inércia;
Estragos da tua ausência... 




Veras

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Raridades


A atmosfera Venusiana
Me faz sorver
Gota a gota,
Esta esparsa chuva primaveril !

A desolação Lunar
Te faz ainda mais rara,
Minha cara condição
De vivo estar...

E ai percebo
Que amo tudo e todos
Aqui,
Neste raro instante azul...

Mas como vulcões,

Ativos em cósmicas instâncias,
Grito também, minhas erupções... 



Veras

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Cabeça

Dentro da cabeça que dormia
Iluminava as silenciosas trevas
O magma espesso que fluía
Erguiam-se monumentais
Cordilheiras nevadas que subiam
Que espetavam nuvens
Que perfuravam céus
Chegando a um passo
De uma intrigada lua

Dentro da cabeça que dormia
Com os mapas das distancias impossíveis
Exercitavam-se asas brancas e cinzas
No humano dorso em que cresciam

E fora da cabeça que dormia
Encostado na parede por pintar
Eu, ali, parado
A observar 



Veras

Poesias biodegradáveis

No momento
Minha única certeza
Era aquela poesia,
Fluindo no cano
Rumo a distante baia
Palavra a palavra
Vestida em nobre caligrafia
Em papel rasgado em ira
Decompondo-se
Em sua biodegradabilidade,
Pelas quentes, úmidas e escuras,
Instancias recônditas da humanidade
Sob indiferentes retinas e alfaias
De ratos , baratas e lacraias... 



Veras

Garimpo.

Noite

Transpiração

Enquanto luas escorrem
Pelos braços exaustos
Palavras e letras escapam
Pela trama da peneira

Tento, insisto
Mas ele não chega

Mãos trêmulas refazem
Movimentos circulares
Mas nessa trama, só entulho
Pedras e pesares

Madrugada de tentativas
Idas e vindas,
Nada

Restou
Dia de conformação,
Enquanto o sol acende
O rosto extenuado
Palavras e letras acalantam
O poema inalcançado... 




Veras

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Lagarto

Cá estou
Esparramado no granito quente
Sob um sol amigo
Sanando, um a um,
Conflitos em minha mente,

Hoje eu sou um lagarto,
Mas creiam,
Um dia já fui gente;
Li Homero
Bebi vinho
Tomei banho quente,
Mas o que melhor eu fiz
Foi amar, amar intensamente

Implorei, rastejei,
Fui tão apaixonado e insano
Que inefavelmente transcendi
O tênue limite do humano

Foi quando me vi assim
Neste lúdico e feroz oceano
Nadando com os iguanas

E agora
Meus únicos problemas
São estes urubus... 



Veras

terça-feira, 19 de outubro de 2010

De um tipo de amor

O amor então
Pode não ser tão bom assim ?
Pergunte aos amantes rasgados

Pelos espinhos ocultos daquele insano jardim,

 O amor pode ser perda de tempo 

Perda de peso, perda de si 
Atrapalhar teus estudos 
Encerrar-te num convento
Deixar-te infindo, cego e surdo
Folha seca na calçada sem vento...
 

Mas o amor pode ser bom em algum momento ?
Talvez o início,quando a fagulha acende o fogo,
Quando , as iniciais, no fresco cimento,

O secreto e  lento  
Instante da eclosão da flor,
O amor...

Mas o tempo virtuoso ,
Experiente em seu trabalho,

Se empenhará
Em não deixar durar tal "ato falho"...
Pois saiba,
Vai transformar o fogo em cinzas,
Os jovens em ranzinzas
O aço e o ferro em pó,
E fazer do belo e rosa laço,
Um desbotado e seco nó



Veras

Camuflados

Ainda que tardia,
Nos secretos 

Metros quadrados desta realidade,
Continuamos a tramar
A nossa particular revolução,
 

Insurgentes e sabedores
Das vigentes inverdades,
Camuflados entre covardes
Seguimos disfarçados,
Nesta normal condição ! 


Veras

Agora

Na crosta da carne que chamam Terra
Imperam espécies em sonhos de latifúndio
Inconsoláveis diante do que se encerra
Inventam Deuses e vidas além mundo

E eu que questiono tais aspirações
Sigo investigando por veios mais profundos
Para humildemente em versos e canções
Celebrar o Agora em seus raros segundos 




Veras

Inspiração agônica 2


Choro ,
viúvo
de minhas inspirações poéticas...

Misturo-me discreto,
com outras lamúrias,
com as folhas mortas,
em branco,
em ventos constantes ,
em carícias circulares
sobre o mármore escuro
dos meus poucos versos...

Na necrópole das idéias,
sobre raso sepulcro,
deito-me,
anjo de bronze,
em meu vestido
longo e mimético,
que se fundi
com a alameda estreita,
a sombra, o cedro

e o sol das cinco... 
 
 
 
Veras