terça-feira, 23 de novembro de 2010

Quietude


Quis ser colhido pelas flores,
pentear a ventania enlouquecida
ornamentar túmulos de vãos amores
deixar o mar, formalmente
adentrar a sala arrumada,

sem me importar
com o olhar circunspeto
da falecida do quinto andar,
aliviado e quieto,
deixar o ar me respirar,
a musica me cantar
a vida me viver,

e num ato de misericórdia
deixar a morte morrer... 
 
 
 
Veras

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Eu te inventei


Com partes arrancadas de mim
te criei,
te encantei
te adorei por inteiro,
te conduzi
pelas expectativas lúdicas
dos curtos cordéis...

Eu te inventei,
te dei vida útil
em cada gesto,
cada ida dramática
e em cada volta festiva,
eu esperei.

mas a ilusão envelheceu,
cumpriu seu ciclo,
nasceu, cresceu, morreu,
e você, virou você mesma;
vai com deus... 
 
 
 
Veras

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Bar


Agora eu sei,
Ela me vê
Mas não me olha com paixão

Passa com graça,
Eu na cachaça,
E mais um poema
No guardanapo do balcão

Olhos cansados
Nariz na vidraça
Suspiros de amor
No vidro que embaça

Mais uma pura
Faço uma jura:
“Não vou me humilhar!”

Pego o caminho de casa
e doido,
vou devagar,

vou planejar... 
 
 
 
 
Veras

Involuntários


Filhos das colisões
das fricções
dos acasos
das explosões,
cá estamos nós,
involuntários,
da árdua tarefa de viver,

Até que a morte,
em sua arte de colher,
sem previa consulta,
arranca-te dessa terra
sem você querer...
(involuntariamente) 
 
 
 
Veras

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Meu poema sem fim


Pousa cândido,
e rasteja tétrico,
dorme entre crianças
e as devora pela manhã...

Ele nunca terá fim,
e a releitura sempre o despertará,
incômodo
apertado
incompleto
insatisfeito
expondo seu pleito
às setas dos meus olhos cúmplices

Este amórfico poema
implora, aos prantos
que eu o abandone,
que o deixe renascer
nos olhos de outros tantos
que o queiram ler
sem suscitar os espantos
do meu compulsivo reescrever



Veras







terça-feira, 2 de novembro de 2010

Solitude





Solidão
Parceira infiel
Nos secretos porões
Nos festivos salões
Que vem quando quer
Quando bem entende,
Sabe-se lá de onde,
Se das alturas
Em que se aninha,
Ou se das cavernas
Cavadas em mim

Que não toca campainha
Ou assovia pra janela,
Pois, sendo “ela”,
É pés nos saltos, largas ancas,
Arrombando minha porta,
Remendada e já sem trancas

Parceira sazonal
Mãos frias
Em suada fronte
Carinhosa
Não me quer mal,
Mãos que podem salvar
Puxando-me, cuidadosa,
Dos escombros dessa mesmice...





Preto e branco

Do branco
Aos tons de cinza
Chegando ao preto;

Eis meu arco-íris
Suspenso sobre a minha inércia;
Estragos da tua ausência... 




Veras